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A Colisão dos Destinos: review do doc sobre Bolsonaro

O documentário sobre Bolsonaro estreou em 14 de maio de 2026 com sessões quase vazias, exalta o ex-presidente, omite Michelle, a derrota de 2022 e a tentativa de golpe. Crítica completa.

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Daniel Krust
··7 min de leitura
Sala de cinema quase vazia na estreia do documentário A Colisão dos Destinos sobre Bolsonaro em maio de 2026

A Colisão dos Destinos: um documentário que escolhe o que quer contar — e o que quer esquecer

Um documentário sobre uma das figuras mais polarizadoras da história política recente do Brasil chegou aos cinemas na quinta-feira, 14 de maio de 2026. A Colisão dos Destinos estreou em 17 estados, com sessões que, ao contrário da euforia prometida pelos apoiadores nas redes sociais, frequentemente registraram cadeiras vazias nas salas comerciais. O que ficou nas telas foi exatamente o que o filme prometeu — e também o que ele decidiu, deliberadamente, deixar de fora.


O que é A Colisão dos Destinos?

A Colisão dos Destinos é um documentário biográfico dirigido por Doriel Francisco e produzido por Mário Frias sobre a vida do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O filme foi lançado nos cinemas em 14 de maio de 2026, com distribuição realizada pela Dori Filmes.

Com cerca de 70 minutos, o longa acompanha a vida de Bolsonaro da infância até a chegada ao Palácio do Planalto, usando relatos de familiares, amigos próximos e aliados políticos.

O roteiro foi escrito por Doriel Francisco e William Alves, com argumento assinado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo ex-secretário especial de Cultura Mario Frias, ambos entrevistados no documentário. A produção chega, portanto, já anunciando de qual lado da mesa ela se senta.


Sessões vazias, pré-estreias lotadas: a contradição do público

Antes da estreia nacional, a mobilização dos apoiadores gerou manchetes otimistas. Em menos de 12 horas do anúncio da sessão de pré-estreia do filme Colisão dos Destinos, os 400 ingressos disponíveis esgotaram para o longa-metragem que fala sobre a trajetória política e pessoal de Jair Messias Bolsonaro.

Com exibição já garantida em mais de 300 salas de cinema, a produção estabeleceu a meta ambiciosa de atingir mil salas em todo o país. Para alcançar esse objetivo, os realizadores do filme contaram com a mobilização espontânea do público, principalmente dos chamados "bolsonaristas", incentivando os cidadãos a entrarem em contato com cinemas locais para solicitar a exibição do longa.

O contraste entre a energia das pré-estreias para convidados e a realidade das salas abertas ao público geral é, por si só, um dado relevante para qualquer análise crítica. Eventos fechados, com plateia selecionada de aliados políticos, sempre geram entusiasmo. O mercado aberto é outro teste.


A família que não foi — e a mulher que não aparece

Uma das imagens mais eloquentes da estreia não foi nenhuma cena do documentário: foi a ausência.

Apesar da presença de diversos aliados políticos, nenhum familiar direto de Bolsonaro participou da estreia. De acordo com interlocutores do partido, Carlos Bolsonaro tinha compromissos previamente agendados. Flávio Bolsonaro também não compareceu por agenda, enquanto Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos.

E dentro do próprio filme, a ausência mais comentada é ainda mais sintomática. Outro ponto observado por convidados foi a ausência de menções, ao longo do filme, a Michelle Bolsonaro, além de outros integrantes da família, como Renan Bolsonaro e Laura Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro é hoje uma das figuras centrais do campo político conservador e pré-candidata. Omiti-la de uma biografia do marido não é distração — é escolha editorial. Após a exibição, Sóstenes Cavalcante afirmou que o material será utilizado na estratégia de comunicação da pré-campanha. Segundo ele, o fato de o filme não incluir eventos recentes evita questionamentos legais. O próprio parlamentar sintetizou o raciocínio por trás das omissões: "Nada é por acaso. Claro que gostaríamos de um filme mais atualizado, mas, se fosse, poderia ser visto pela legislação como campanha antecipada. Como não tem nenhum anúncio de candidatura indicado por ele [Bolsonaro], não tem a prisão dele, não pode ser visto como eleitoreiro."

A confissão é desnecessariamente honesta: o documentário foi construído para não ser questionado juridicamente.


O que o filme conta — e o que deliberadamente omite

O roteiro apresenta o ex-presidente como uma pessoa simples, humilde, estudiosa, crente em Deus, antirracista, firme em suas posições, além de defensora da família e da liberdade de expressão. O longa viaja pela infância de Bolsonaro em Eldorado (SP) — onde ele cresceu —, passa pela juventude e explica como ele passou a se interessar pelo militarismo.

O trailer divulgado nas redes sociais mostra imagens da passagem de Bolsonaro pelo Exército, sua atuação parlamentar, campanhas eleitorais e o atentado a faca sofrido em Juiz de Fora durante a eleição presidencial de 2018.

O que não aparece em nenhum dos 70 minutos é tão importante quanto o que aparece. O documentário encerra sua narrativa na chegada ao Planalto. Não há uma palavra sobre:

  • A derrota nas eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva
  • Os atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores invadiram e depredaram o Congresso, o STF e o Palácio do Planalto
  • A condenação por tentativa de golpe de Estadoo longa foi filmado integralmente em inglês com o objetivo de alcançar um público internacional ao reconstituir a trajetória política de Bolsonaro, que foi condenado por tentativa de golpe de Estado e segue preso preventivamente
  • A situação jurídica atual do ex-presidente, que, segundo fontes, cumpre prisão domiciliar

Omitir esses fatos em uma biografia contemporânea não é opção estética. É revisão histórica.


Análise técnica: o documentário como instrumento

Do ponto de vista cinematográfico, A Colisão dos Destinos opera dentro de um subgênero bem estabelecido: o filme de campanha disfarçado de documentário. A sinopse afirma que a obra tenta apresentar um olhar de "humanização e contextualização", equilibrando a figura pública do ex-presidente com depoimentos de pessoas próximas. Essa escolha indica um recorte mais biográfico e favorável à leitura pessoal da trajetória, em vez de uma investigação crítica ou uma revisão ampla dos conflitos políticos do período.

A direção de Doriel Francisco — baiano formado em artes cênicas em Brasília — não apresenta nenhum desafio estético ao espectador. Não há entrevistas confrontadoras, material de arquivo que contrarie a narrativa, ou voz over analítica. O que há é um fluxo de depoimentos favoráveis, fotografias de família e uma trilha sonora desenhada para emocionar. Tecnicamente funcional; crítico e jornalisticamente, insuficiente.

A escolha de depoimentos de familiares, amigos e aliados levanta uma questão editorial natural: o documentário deve ser recebido como uma narrativa de proximidade, não como retrato definitivo de um personagem histórico ainda cercado por disputas judiciais, políticas e sociais. Em obras sobre figuras públicas vivas e altamente controversas, o ponto de vista da produção importa tanto quanto os fatos retratados.


O contexto: um Brasil com dois filmes sobre Bolsonaro em 2026

A Colisão dos Destinos não é o único projeto audiovisual sobre o ex-presidente em cartaz neste ano. Dark Horse é um futuro filme de drama biográfico norte-americano dirigido por Cyrus Nowrasteh e escrito por Mário Frias, com previsão de estreia para 11 de setembro de 2026.

A previsão de lançamento de Dark Horse no Brasil é para o dia 11 de setembro de 2026. O cronograma é visto como estratégico, posicionando o filme como uma peça de forte impacto emocional e político a menos de um mês das eleições presidenciais de 2026.

O Dark Horse também gerou polêmica própria: o documentário A Colisão dos Destinos estreou em salas de cinema de 17 estados apenas um dia depois da divulgação de mensagens e áudios em que Flávio aparece cobrando Vorcaro por pagamentos relacionados a uma produção de um filme sobre o ex-presidente.

A existência de mais de uma produção sobre Bolsonaro mostra que sua imagem virou também produto cultural e campo de batalha simbólico. O cinema, nesse caso, não serve apenas para contar uma vida. Serve para disputar memória, emocionar bases políticas, provocar críticos e reorganizar percepções sobre um período recente da história brasileira.


Vale a pena assistir?

Depende do que você busca. Se a pergunta é "isso é cinema?", a resposta é: é audiovisual bem produzido, com intenção clara e execução competente dentro de sua proposta.

Se a pergunta é "isso é documentário no sentido jornalístico do termo?", a resposta é não. Não há contraditório, não há apuração, não há arquivo crítico. O que existe é um painel de depoimentos de admiradores, montado para consumo político, com lacunas históricas que não são acidentais.

Nota: 3/10

O número reflete não a produção técnica em si, mas a desonestidade estrutural de uma obra que se apresenta como retrato e funciona como peça de propaganda — e que, ao suprimir derrota, golpe, processo judicial e até a própria esposa do protagonista, revela que tem muito mais medo da memória do que respeito por ela.


Perguntas frequentes (FAQ)

A Colisão dos Destinos vale a pena?

Depende do perfil do espectador. Como peça de admiração ao ex-presidente, cumpre o que promete. Como documentário crítico ou jornalístico, é incompleto: omite a derrota eleitoral de 2022, os atos de 8 de janeiro, a condenação por tentativa de golpe e não menciona Michelle Bolsonaro.

Onde assistir A Colisão dos Destinos?

O documentário estreou nos cinemas em 14 de maio de 2026, distribuído pela Dori Filmes em 17 estados brasileiros. Não há, até o momento, confirmação de estreia em plataformas de streaming.

Qual a diferença entre A Colisão dos Destinos e Dark Horse?

São dois projetos distintos. A Colisão dos Destinos é um documentário biográfico de 70 minutos, dirigido por Doriel Francisco, já em cartaz. Dark Horse é uma cinebiografia dramatizada, dirigida por Cyrus Nowrasteh e estrelada por Jim Caviezel, com estreia prevista para 11 de setembro de 2026.

Tags:#Documentário#Cinema Nacional#Política#Reviews#Lançamentos 2026#Bolsonaro

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