Pipoca Crítica

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Extermínio: O Templo dos Ossos — por que fracassou?

Nia DaCosta abre o jogo sobre o flop de O Templo dos Ossos: 92% no Rotten Tomatoes, US$ 58 mi na bilheteria e uma trilogia em risco. Análise completa.

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Daniel Krust
··7 min de leitura
Interior sombrio do Templo dos Ossos com colunas feitas de caveiras — cena evocando o terror pós-apocalíptico de Extermínio O Templo dos Ossos

Extermínio: O Templo dos Ossos — o paradoxo do maior flop do ano

Um filme com 92% no Rotten Tomatoes que não pagou o próprio orçamento. Nia DaCosta orgulhosa de um trabalho que quase ninguém foi ver ao cinema. Uma trilogia planejada que agora pende por um fio. Extermínio: O Templo dos Ossos é, em 2026, o mais desconcertante caso de dissociação entre qualidade e bilheteria.


O que é O Templo dos Ossos

Extermínio: O Templo dos Ossos (título original: 28 Years Later: The Bone Temple) é um filme de horror pós-apocalíptico de 2026, dirigido por Nia DaCosta com roteiro de Alex Garland. Sequência direta de 28 Years Later (2025) e quarto capítulo da franquia iniciada em 2002, o filme tem no elenco Ralph Fiennes, Jack O'Connell, Alfie Williams, Erin Kellyman e Chi Lewis-Parry.

A trama segue Spike, que acaba sendo absorvido pela seita satânica de "Sir Lord" Jimmy Crystal, enquanto o Dr. Ian Kelson desenvolve uma conexão inesperada com Samson, um Infectado Alfa.

A ideia original de Danny Boyle e Alex Garland sempre foi maior do que um único filme. O plano era uma trilogia ambiciosa: Boyle dirigiria o primeiro capítulo e DaCosta assumiria o segundo, The Bone Temple, rodado em sequência com seu predecessor.


Uma diretora com visão própria

Nia DaCosta não chegou ao projeto para ser uma diretora de aluguel. Sentindo-se "protetora do legado" da franquia, sua proposta era justamente não copiar o estilo de Danny Boyle, mas criar uma obra pessoal e idiossincrática. Boyle e Garland supervisionaram o processo, mas concederam a ela liberdade criativa total, sem interferir nas decisões de direção.

Essa autonomia se traduz na tela. Segundo Ralph Fiennes, enquanto a abordagem de Boyle no filme anterior era instintiva e veloz, o método de DaCosta era mais deliberado e meticuloso, especialmente nos closes, dando aos atores mais tempo para desenvolver nuances. Tecnicamente, o filme também marca uma ruptura: ao contrário do predecessor, rodado no iPhone 15 Pro, O Templo dos Ossos foi filmado com a câmera Arri Alexa 35.

O segundo longa da trilogia rompe de certa forma com o estilo impresso por Boyle no capítulo anterior. Em vez de emular as filmagens em iPhone ou as coreografias de ação com aceleração de quadros, DaCosta opta por um ritmo mais contemplativo, colocando os pés no chão para ilustrar o conflito entre fé e ciência naquela Grã-Bretanha presa ao passado.


O que funciona no filme

O grande trunfo são as atuações. A direção excepcional de DaCosta e as performances poderosas — especialmente de Ralph Fiennes e Jack O'Connell — constroem uma atmosfera sombria e implacável. A fotografia e o tom sombrio receberam elogios generalizados da crítica.

Se o coração do filme pertence a Fiennes e Chi Lewis-Parry, seu pulso selvagem e imprevisível vem de Jack O'Connell. Como Sir Lord Jimmy Crystal, ele é fantasticamente desequilibrado — elétrico, volátil e completamente delirante. É uma performance que flerta com o caos sem jamais perder o controle, e as cenas com O'Connell transbordam perigo.

Um dos momentos mais memoráveis do filme — uma cena em que o Dr. Kelson e Samson dançam ao som de Rio, do Duran Duran — não estava no roteiro original e surgiu de improviso durante as filmagens.


Nota da crítica: 8/10

O Templo dos Ossos é um filme difícil de recomendar ao público casual de terror, mas é exatamente o tipo de obra que cinéfilos vão revisitar. A ambição artística é inegável: DaCosta transforma o que poderia ser um simples filme de zumbi em uma reflexão sobre fanatismo, ciência e o que significa ser humano num mundo sem normas. O ritmo mais lento e a recusa ao fan service vão afastar parte do público — mas recompensam quem topa o mergulho.

Pontos fortes: direção precisa, Fiennes e O'Connell em estado de graça, fotografia densa, construção de atmosfera impecável.
Pontos fracos: ritmo irregular em alguns atos, curva de aprendizado alta para quem não assistiu ao predecessor recentemente.


Os números que não fecham

Aqui está o paradoxo central. No Rotten Tomatoes, 92% das 338 críticas publicadas são positivas. O consenso do site diz que o filme "aprofunda o horror enquanto aumenta o gore, adornado pela direção perturbadora de DaCosta e pelas performances inspiradas de Fiennes e O'Connell." No Metacritic, a nota é 81/100, indicando "aclamação universal".

O CinemaScore do público chegou a "A−" — nota superior ao "B" do primeiro filme. E 72% dos espectadores disseram que definitivamente recomendariam o longa.

E ainda assim: lançado em janeiro, O Templo dos Ossos acumulou US$ 58 milhões no mundo inteiro — pouco mais de um terço dos US$ 151 milhões arrecadados por 28 Years Later. Com orçamento estimado em cerca de US$ 63 milhões, o filme sequer cobriu os custos de produção, sem contar o marketing.

A produção da Sony Pictures despencou 71,2% em seu segundo fim de semana nos EUA, somando apenas US$ 3,6 milhões. O filme migrou para o VOD com apenas 32 dias em cartaz. Chegou à Netflix em 31 de março, apenas 74 dias após o lançamento.


O que Nia DaCosta disse à Empire

Em entrevista à revista Empire — publicada nos dias anteriores a esta análise —, DaCosta afirmou que os números não refletem a recepção real do público: "É engraçado, porque literalmente todos os indicadores que usamos na indústria para saber se um filme é bom, se as pessoas gostam e querem ver, estavam lá em cima, e mesmo assim a bilheteria não apareceu. Fizemos um ótimo filme, e estou muito orgulhosa dele, e as pessoas gostaram."

DaCosta levantou ainda a hipótese de que o intervalo entre os dois filmes pode ter sido curto demais: alguns espectadores simplesmente confundiram o novo lançamento com o primeiro. Afinal, os dois foram rodados juntos e chegaram ao cinema com menos de seis meses de distância.

Ao mesmo tempo, a diretora buscou uma perspectiva mais saudável sobre a carreira: "Minha amiga me disse anos atrás: 'Nia, sua carreira existe para você aproveitar'. E eu realmente tenho tentado colocar isso em prática. Então, quando o filme saiu e não foi tão bem em termos de dinheiro, fiquei desapontada."

Não é a primeira vez que DaCosta entrega um bom trabalho e leva o troco errado de Hollywood. De Candyman lançado ainda na ressaca da pandemia a Hedda praticamente engavetado pela Amazon, a diretora segue produzindo filmes que a indústria não sabe como vender.


O futuro da trilogia

Após o lançamento digital, fãs passaram a questionar se a franquia poderia ter sido encerrada. A suspeita surgiu por causa de uma publicação promocional que afirmava: "Testemunhe o final que você esperou por 28 anos." A frase gerou dúvidas porque o filme termina em aberto, com um cliffhanger evidente.

O fim de O Templo dos Ossos prepara um terceiro capítulo ao reintroduzir Jim, o personagem de Cillian Murphy do Extermínio original.

Um terceiro filme foi discutido e Cillian Murphy estaria em conversas para o projeto, mas nada oficial foi confirmado. O próprio Murphy respondeu "espero que sim" quando perguntado sobre o andamento — o que não soa exatamente como luz verde.

Até o momento, o estúdio não se pronunciou oficialmente sobre o futuro da franquia após a retirada de O Templo dos Ossos dos cinemas.


Vale a pena assistir?

Sim — com ressalvas. Se você assistiu ao primeiro filme e curte horror com ambição autoral, O Templo dos Ossos é uma das experiências mais ricas de 2026. DaCosta prova que é uma cineasta de primeira linha, e tanto Fiennes quanto O'Connell entregam performances de antologia.

Se você quer um filme de zumbi de adrenalina pura, pode se frustrar. A proposta aqui é outra: mais densa, mais lenta, mais interessada em personagens do que em sustos.

O paradoxo de O Templo dos Ossos é quase poético: um filme excelente que morreu de solidão nas salas de cinema. Resta torcer para que a Netflix — onde o filme estreou em março — dê a ele o público que o cinema não entregou.


Perguntas frequentes (FAQ)

O Templo dos Ossos vale a pena assistir?

Sim. Com 92% de aprovação no Rotten Tomatoes e notas altas do público, o filme é considerado pela crítica uma das melhores entradas da franquia — embora exija paciência com o ritmo mais lento e seja ideal para quem assistiu ao primeiro filme da trilogia.

Onde assistir Extermínio: O Templo dos Ossos no Brasil?

O filme estreou na Netflix no final de março de 2026, apenas 74 dias após o lançamento nos cinemas, e também está disponível em plataformas digitais de aluguel e compra.

A trilogia de Extermínio vai continuar com o terceiro filme?

Por enquanto, não há confirmação oficial. O terceiro filme foi planejado com o retorno de Cillian Murphy, mas o fraco desempenho comercial de O Templo dos Ossos deixou o futuro da saga em aberto. O estúdio não se manifestou publicamente sobre uma possível continuação.

Tags:#Terror#28 Years Later#Nia DaCosta#Sony Pictures#Franquia Extermínio#Bilheteria#Lançamentos 2026

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