A Colisão dos Destinos: salas vazias e muito barulho
O documentário sobre Bolsonaro estreou em 14 de maio com sessões quase desertas. Entenda o que vai (e o que não vai) na tela — e por que a obra falhou antes mesmo de começar.

A Colisão dos Destinos: salas vazias e muito barulho
Um documentário sobre um dos políticos mais polarizantes da história recente do Brasil estreou na quinta-feira, 14 de maio de 2026 — e encontrou, em boa parte do país, cadeiras vazias. A Colisão dos Destinos chegou como notícia antes mesmo de virar cinema. E, depois de assistir, dá para entender os dois fenômenos.
O que é o filme
O documentário A Colisão dos Destinos, dirigido por Doriel Francisco e produzido por Mario Frias, estreou em 14 de maio de 2026. Produzido pela Dori Filmes, o longa tem duração de 69 minutos. Além de ser o diretor, Francisco é dono da produtora, a Dori Filmes, sediada em Brasília, e assina o roteiro com William Alves.
Nos créditos, consta que o argumento é de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e de Frias. O produtor, por sua vez, afirma ter bancado tudo com o próprio bolso: em entrevista à Gazeta do Povo, Francisco diz ter financiado a produção inteiramente com recursos próprios — "não teve nenhum real de patrocínio público ou privado. Fui obrigado a vender um carro e um terreno."
O que aparece na tela
O documentário aborda desde a infância de Bolsonaro, passando pela carreira militar e ascensão política, até a chegada à Presidência da República. A produção promete apresentar uma "versão humanizada" de Bolsonaro por meio de depoimentos do ex-presidente, filhos, irmãos, assessores e aliados políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG), Hélio Lopes (PL-RJ) e Gil Diniz (PL-SP).
A produção também dedica espaço ao atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha de 2018 em Juiz de Fora (MG). Familiares e aliados descrevem o episódio como um momento decisivo para fortalecer o então candidato. O encerramento do filme reúne depoimentos de filhos e irmãos do ex-presidente defendendo que Bolsonaro teria uma missão divina. A última sequência mostra imagens do ex-presidente sendo aplaudido por apoiadores em eventos políticos e atos públicos.
O que não aparece na tela
Aqui está o nó central do problema narrativo da obra. O filme apresenta uma versão "humanizada" de Jair Bolsonaro, com depoimentos de familiares e aliados, mas sem participação de Michelle Bolsonaro. Também não há menção à derrota eleitoral de 2022, à condenação por tentativa de golpe em 2025 ou às acusações da CPI da Covid.
Não há citações do noticiário ou dados sobre os principais eventos durante a administração Bolsonaro. Ao falar sobre a pandemia, o documentário foca em depoimentos de parlamentares aliados. O deputado Hélio Lopes afirma que o ex-presidente "não errou uma" durante esse período. A CPI da Covid, que investigou omissões do governo naquele mesmo período, sequer é mencionada.
Documentários têm toda a licença do mundo para escolher um ponto de vista. O que compromete A Colisão dos Destinos do ponto de vista cinematográfico é diferente: a obra evita qualquer tensão dramática. Sem contrapontos, sem conflito real, sem perguntas difíceis — o que resta é pouco mais que um vídeo institucional estendido.
O problema de distribuição (e de estratégia)
As cadeiras vazias não são acidente. O documentário chega ao seu primeiro fim de semana em cartaz com distribuição falha e salas vazias. Apesar de ser exibido em 17 estados, a obra está fora do circuito Rio-São Paulo.
O documentário passa ao largo de grandes redes, como Cinemark e Kinoplex, sendo veiculado por marcas menos famosas. Os números de público nas sessões de estreia foram eloquentes: o g1 acompanhou a sessão de estreia em Embu das Artes (SP), que contava com sete telespectadores. Uma hora antes, outras salas no interior de SP estavam com cerca de 5 a 6 ingressos vendidos, de acordo com o site do Grupo Cine.
Por que tão pouco público e tão poucas salas? Especialistas ouvidos pela imprensa apontam dois fatores combinados. Profissionais do setor audiovisual afirmam que um filme com esse teor político, em ano eleitoral, afasta os programadores. Do mesmo modo, dizem que a estratégia de lançamento foi mal conduzida — tanto que a comunidade cinéfila desconhecia sua produção até a estreia.
Humberto Neiva, coordenador do curso de cinema da FAAP e programador da distribuidora Gullane+, diz que a ausência indica alguns entraves para a circulação da obra: "É um documentário sobre um político que traz milhões de polêmicas e alguns exibidores não querem se comprometer com questões políticas."
Um profissional do setor audiovisual que prefere não se identificar conta que faltou à produção um contrato com uma distribuidora reconhecida. Diz que a Dori Filmes parece ter uma estrutura amadora por não constar em seu portfólio nenhum documentário de peso.
O elefante na sala: Dark Horse
É impossível analisar A Colisão dos Destinos sem mencionar o contexto em que estreou. O lançamento ocorre em meio à repercussão das mensagens publicadas pelo site The Intercept Brasil, que expuseram diálogos entre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Os diálogos se referem ao Dark Horse — outro projeto, maior e mais caro, sobre Bolsonaro. O filme é estrelado por Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro, e a estreia está prevista para o dia 11 de setembro de 2026 nos Estados Unidos. Segundo a reportagem do Intercept, Vorcaro transferiu ao menos R$ 61 milhões para a produção do longa, de um valor total acordado em R$ 134 milhões, tornando-se o maior montante destinado a uma única produção na história do cinema brasileiro.
Apesar da temática semelhante e de compartilhar nomes na equipe, como Mario Frias, a produção A Colisão dos Destinos não é a mesma envolvida nas denúncias sobre financiamento ligado ao empresário Daniel Vorcaro. Mesmo assim, o escândalo contaminou o ambiente em torno da estreia — e tirou qualquer oxigênio que o documentário pudesse ter na imprensa.
Análise técnica e nota
Do ponto de vista cinematográfico, A Colisão dos Destinos é uma obra modesta. A direção de Doriel Francisco não apresenta recursos visuais marcantes: sem arquivo histórico robusto, sem reconstituições, sem o tipo de edição rítmica que caracteriza documentários políticos de impacto — os nomes de referência seriam O Ato de Matar (2012), de Joshua Oppenheimer, ou o brasileiro Santiago (2007), de João Moreira Salles.
O que se tem são talking heads em sequência, iluminação funcional e uma narrativa que evita qualquer atrito. Para o público já convertido, pode funcionar como um álbum de memórias afetivas. Para quem busca um documentário com densidade histórica, rigor jornalístico ou tensão dramática, a experiência é frustrante.
Especialistas do setor audiovisual entendem que, se o objetivo for expandir o eleitorado, a obra deveria estar no streaming e não no cinema. É uma observação certeira — tanto sobre escolha de plataforma quanto sobre a natureza do conteúdo entregue.
Nota: 4/10. Um retrato que escolhe contar metade da história e, ao fazer isso, perde força como documento e como cinema.
Perguntas frequentes (FAQ)
A Colisão dos Destinos vale a pena assistir?
Depende do que você busca. Como peça de propaganda afetiva para fãs do ex-presidente, cumpre seu papel. Como documentário cinematográfico — com profundidade, tensão dramática e rigor histórico — fica muito aquém do potencial do tema.
Onde assistir A Colisão dos Destinos?
O filme está em cartaz nos cinemas em 17 estados, mas fora do eixo Rio–São Paulo e das grandes redes nacionais. Não há confirmação de data de estreia em plataformas de streaming até o momento.
A Colisão dos Destinos é o mesmo filme que Dark Horse?
Não. São duas produções distintas. Dark Horse, estrelado por Jim Caviezel e dirigido por Cyrus Nowrasteh, tem previsão de estreia nos EUA para 11 de setembro de 2026 e foi o centro das polêmicas envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. A Colisão dos Destinos é um documentário brasileiro independente, com 69 minutos, dirigido por Doriel Francisco.
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