A Colisão dos Destinos: salas vazias e muita polêmica
O documentário sobre Jair Bolsonaro estreou em 14 de maio de 2026 com distribuição falha, sem SP e RJ, e sessões quase desertas. Análise completa aqui.

A Colisão dos Destinos: salas vazias, polêmica máxima e um documentário que evita as perguntas difíceis
Um documentário sobre o ex-presidente mais polarizador da história recente do Brasil estreia nos cinemas — e chega quase sem ninguém pra ver. Esse é o paradoxo de A Colisão dos Destinos, que entrou em cartaz em 14 de maio de 2026 num momento de enorme turbulência política e terminou o primeiro fim de semana com sessões quase desertas.
O que é A Colisão dos Destinos
O documentário A Colisão dos Destinos, sobre a vida e trajetória de Jair Bolsonaro, estreou no dia 14 de maio. O longa de 70 minutos é o primeiro dirigido por Doriel Francisco, da produtora Dori Filmes. O roteiro é assinado por Doriel Francisco e William Alves, e nos créditos consta que o argumento é de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do deputado Mario Frias.
Na prática, o filme reconta a história de Bolsonaro, da infância e adolescência à presidência, passando pela carreira militar. A produção promete apresentar uma "versão humanizada" de Bolsonaro por meio de depoimentos do ex-presidente, filhos, irmãos, assessores e aliados políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG), Hélio Lopes (PL-RJ) e Gil Diniz (PL-SP). Michelle Bolsonaro não aparece entre os entrevistados.
Uma distribuição que tropeça no próprio pé
O maior problema de A Colisão dos Destinos não está dentro da tela — está fora dela.
O documentário chega ao seu primeiro fim de semana em cartaz nos cinemas com distribuição falha e salas vazias. Apesar de ser exibido em 17 estados, a obra está fora do circuito Rio-São Paulo.
Faltando uma hora para o início do filme, quatro cinemas estavam completamente vazios. Em Itapetininga, duas pessoas reservaram assentos; Rio Claro, Sumaré e Vargem Grande Paulista, pouco mais de dez poltronas ocupadas. Em Embu das Artes, na Grande São Paulo, uma exibição reuniu apenas sete espectadores. Dados do site do Grupo Cine mostravam que outras sessões no interior paulista tinham entre cinco e seis ingressos vendidos pouco antes do início.
O documentário está em cartaz em nove salas em Santa Catarina, sete no Rio Grande do Sul, cinco no Espírito Santo, na Bahia e em Minas Gerais, entre outros estados. Os principais grupos exibidores são o Grupo Cine, Grupo GNC, Cine Gracher, AFA Cinemas, Cine Plus e UCI Orient — nenhum deles figura entre as grandes redes exibidoras do país.
Por que as grandes redes ficaram de fora? Humberto Neiva, coordenador do curso de cinema da Faap e exibidor do Espaço Itaú de Cinema por 28 anos, explica: "É um documentário sobre um político que traz milhões de polêmicas e alguns exibidores não querem se comprometer com questões políticas."
Um profissional do setor audiovisual que prefere não se identificar conta que faltou à produção um contrato com uma distribuidora reconhecida, e diz que a Dori Filmes parece ter uma estrutura amadora por não constar em seu portfólio nenhum documentário de peso.
O próprio diretor Doriel Francisco admitiu a dificuldade: "Tive dificuldade com as grandes redes exibidoras, nenhuma delas aceitou exibir o filme."
O que o filme mostra — e o que deliberadamente omite
Do ponto de vista editorial, A Colisão dos Destinos faz uma escolha clara: é um retrato de dentro para fora, construído exclusivamente por quem torce pelo protagonista.
Ao falar sobre o período em que Jair Bolsonaro foi presidente, o documentário foca em depoimentos de parlamentares aliados como os deputados Nikolas Ferreira e Hélio Lopes. Lopes afirma que o ex-presidente "não errou uma" durante a pandemia. A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid investigou as suspeitas de omissões do governo Bolsonaro no enfrentamento à pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021 — contexto que o filme não menciona.
Apesar de ter sido finalizado em 2025, o documentário foi adiado após "últimos acontecimentos", período em que Bolsonaro era julgado por tentativa de golpe. O longa não menciona a derrota eleitoral de 2022 nem a condenação sofrida pelo ex-presidente em 2025.
O encerramento do filme reúne depoimentos de filhos e irmãos do ex-presidente defendendo que Bolsonaro teria uma missão divina. A última sequência mostra imagens do ex-presidente sendo aplaudido por apoiadores em eventos políticos e atos públicos.
Esse recorte narrativo não é, em si, um crime cinematográfico — todo documentário tem um ponto de vista. O problema é quando esse ponto de vista é apresentado como retrato completo de uma figura histórica ainda cercada por processos judiciais e disputas políticas abertas.
O financiamento e o elefante na sala
A Colisão dos Destinos chegou às telas em meio a um escândalo que envolve um projeto paralelo e maior: o Dark Horse.
O lançamento ocorre em meio à repercussão das mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil, que expuseram diálogos entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. O filme mencionado nos áudios de Flávio é "Dark Horse", obra de ficção estrelando Jim Caviezel, que não teria relação com "A Colisão dos Destinos". O senador Flávio Bolsonaro teria pedido R$ 61 milhões ao banqueiro para bancar a produção do "Dark Horse".
Quanto ao próprio A Colisão dos Destinos, o quadro também não é simples. Embora o diretor Doriel Francisco afirme que utilizou recursos próprios, dados da cota parlamentar mostram repasses de R$ 22.432 feitos por Mário Frias à produtora Dori Filmes entre abril e julho de 2024. Frias justifica que o valor refere-se a serviços de publicidade parlamentar e não diretamente ao filme.
Dark Horse: o blockbuster que ainda vem por aí
Enquanto o documentário modesto luta por público, a superprodução aguarda sua vez. Dark Horse é estrelado por Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro, e o elenco principal conta com Marcus Ornellas, Sérgio Barreto, Eddy Finlay e Camille Guaty. A estreia está prevista para o dia 11 de setembro de 2026 nos Estados Unidos.
O longa foi filmado integralmente em inglês com o objetivo de alcançar um público internacional ao reconstituir a trajetória política de Bolsonaro, que foi condenado por tentativa de golpe de Estado e segue preso preventivamente.
O diretor Cyrus Nowrasteh definiu o longa como um "thriller político tenso sobre poder, mídia e fé sob ataque" e afirmou que o projeto foi pensado para ir além de uma simples cinebiografia. A previsão de lançamento de Dark Horse no Brasil é para o dia 11 de setembro de 2026, cronograma visto como estratégico, posicionando o filme como uma peça de forte impacto emocional e político a menos de um mês das eleições presidenciais de 2026.
Análise técnica: um documentário amador com ambições grandes demais
Com apenas 70 minutos, A Colisão dos Destinos tem duração curta — e mesmo assim parece alongado em determinados momentos. A direção de Doriel Francisco é funcional, mas longe de qualquer sofisticação cinematográfica. Não há uma proposta visual clara, os cortes são mecânicos e a trilha sonora serve apenas para sinalizar ao espectador qual emoção sentir.
O maior mérito do filme é reunir depoimentos em primeira pessoa de figuras próximas a Bolsonaro, o que tem valor de arquivo histórico. O maior defeito é apresentar esses depoimentos sem nenhum contraponto, nenhuma camada crítica, nenhum contexto que situe o espectador além do que os entrevistados querem dizer.
Profissionais do setor apontam que, se o objetivo for expandir o eleitorado, a obra deveria estar no streaming e não no cinema. É um diagnóstico preciso: o público-alvo natural do documentário não frequenta salas de cinema com regularidade, e a ausência das grandes praças culturais do país praticamente garante que a obra fique restrita a um nicho geográfico.
Nota Pipoca Crítica: 4/10. Um documentário que se propõe a humanizar uma figura histórica, mas escolhe o caminho mais fácil: só deixa falar quem já torce. O resultado é um material com valor de arquivo e pouco mérito cinematográfico — lançado na hora errada, no lugar errado, do jeito errado.
Perguntas frequentes (FAQ)
A Colisão dos Destinos vale a pena assistir?
Depende do que você busca. Como material de arquivo com depoimentos inéditos da família Bolsonaro, tem algum valor. Como documentário cinematográfico, é raso: não apresenta contrapontos, omite fatos relevantes como a derrota de 2022 e a condenação de 2025, e a direção é amadora.
Onde assistir A Colisão dos Destinos?
O filme está em cartaz em salas de cinema de 17 estados desde 14 de maio de 2026. Não está disponível em São Paulo capital nem no Rio de Janeiro, e ainda não tem data de estreia em plataformas de streaming.
O que é o filme Dark Horse e qual a diferença para A Colisão dos Destinos?
Dark Horse é uma superprodução americana dirigida por Cyrus Nowrasteh, com Jim Caviezel no papel de Bolsonaro, com estreia prevista para 11 de setembro de 2026 nos EUA. É uma obra de ficção com orçamento milionário, sem relação direta com A Colisão dos Destinos, que é um documentário nacional de baixo orçamento produzido pela Dori Filmes.
🌐 Em outros blogs de cinema
Mais leituras pra você
Continue lendo





